Primary Navigation

Rejane Martins da Revista Aldeia

O olhar apurado de Rejane Martins para observar, contar histórias e empreender

Caneta e papel?

Engane-se quem acredita que essa é a dupla de ferramentas que Rejane Martins tem como essenciais para realizar seu trabalho como jornalista fundadora da Aldeia, a revista mais premiada do Paraná e que soma impressionantes 25 prêmios de jornalismo.

É a inquietação, acompanhada de um otimismo criterioso que faz dela a empreendedora responsável por observar e transformar detalhes em histórias bem contadas e inspiradoras. 

Mas nem sempre foi assim.

Antes de se tornar empreendedora, Rejane tinha um limite muito distinto e bem estabelecido – por ela e pelos outros – entre o jornalismo e aquilo que viria a ser o seu negócio e propósito de vida.

Não à toa, o Realiza Bonita estreia contando a história de uma empreendedora que está acostumada a contar outras histórias, mas precisou provocar uma reviravolta na carreira para poder contar a própria história livre de amarras.

Primeiro, a jornalista

Quando recém formada em letras pela Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná), dar aulas em sala de aula não era uma opção, e por isso ela abraçou a responsabilidade de ser revisora de textos na Gazeta do Paraná.

Um ano e meio depois, junto com uma colega, ela deixava o jornal para avançar em direção ao que seria sua primeira iniciativa como empreendedora: o Prisma Cascavel.

Me achava A jornalista, mas como não sabíamos vender, nem administrar, esse jornal que era de serviço e cultura não durou um ano“.

Rápido assim: um erro, um aprendizado. 

Rejane não exitou em retornar ao jornal onde começou sua carreira para assumir o caderno cultural. Paralelamente, desenvolvia trabalhos de assessoria de imprensa e foi assim, imersa na comunicação que em 2000 ela decidiu apurar o faro de jornalista em lençóis maranhenses. 

A essa altura você não perdeu nenhuma parte do texto, não.

É que o marido de Rejane, na época médico do exército, foi transferido para o Maranhão e foi em São Luís que ela cursou jornalismo na UFMA (Universidade Federal do Maranhão).

Quatro anos depois ela retornou a Cascavel formada em jornalismo, e com diploma em mãos, a inquietação por falta de formação na área não fazia mais sentido.

Porém, tinha dado lugar ao desejo de empreender.

Eu sempre quis ter um projeto meu, um projeto que eu colocasse a minha identidade, o meu DNA. Eu já sabia que seria algo na área do jornalismo, mas não sabia que produto seria, nem em que momento da vida seria. Sabia que tinha que amadurecer nessa caminhada.

Assim, dois anos depois, ela abriu o portal Aldeia com um ex-sócio. “Nasceu como site, mas diante da dificuldade de comercializar site em 2007, resolvemos fazer ela impressa”. E o reconhecimento veio.

Uma batalha por dia dentro do próprio negócio

Para compreender a história de Rejane, você precisa, primeiro, compreender que foi apenas nove anos depois de criar a Aldeia, sua menina dos olhos, que ela se tornou empreendedora.

Era 2016 e a revista cascavelense já tinha conquistado leitores e prêmios. Mas estava distante do que Rejane idealizava. 

Na prática, a teoria do empreendedorismo feminino não funcionava debaixo do próprio teto. “Eu tinha 50% da sociedade. Tentei colocar identidade, valores pessoais e o que acreditava no jornalismo na revista. Mas eu não tinha acesso a contas, gestão, nada”.

E após nove anos vivendo como funcionária dentro da sua empresa, Rejane desfez a sociedade para assumir a Aldeia em sua totalidade. 

“Foi um período de sofrimento, porém libertador e de reinvenção”.

A demora para assumir as rédeas do próprio negócio ela atribui ao fator cultural. “Há 70 anos mulheres não votavam, isso é recente. Apesar de ser um um movimento que está acontecendo há algum tempo, as mulheres começaram a ir para o mercado de trabalho muito timidamente”.

Foi assim que tomou forma a segunda grande dificuldade que Rejane precisou enfrentar.

“Quando eu decidi assumir estar a frente da empresa, eu não conseguia me enxergar como mulher empresária à frente do meu negócio. Mas quando você encara, tudo vai se clareando, o que era uma barreira gigantesca se torna minúscula e você vê que a dificuldade é para todos”.

Rejane é segura ao enxergar seu papel, mas também, a participação e impacto das pessoas na construção da sua história como empreendedora. 

As mulheres têm múltiplas identidades, ela não é só empresária. É mãe, é esposa, é filha. As mulheres estão  sempre cuidando de alguém e isso exige tempo. Ser empreendedora exige tempo. É preciso que os homens enxerguem e participem disso, sem medo por estarmos ocupando nossas posições. Existem movimentos que estão sendo pensados a partir dessa ótica de trabalhar juntos. Quando se constrói essa caminhada coletiva tudo fica muito mais fácil.

Educação financeira: uma luta comum aos empreendedores

Rejane faz parte da minoria dos 2,4 milhões de empresários que possuem ensino superior completo, conforme relatório do Sebrae (2018).

O fato de nenhuma das formações ter foco em administração ou gestão salienta um calo comum a todos os empreendedores: a ausência de educação financeira em escolas e faculdades.

“Eu sou de uma geração que nem nas escolas e faculdades, nem em casa nós recebíamos motivação para empreender. Estudar significava ter um emprego e ponto final. Como jornalista, eu tive que romper a barreira da escrita. Não basta ser apenas uma boa jornalista e escrever bem, eu tive que estar a frente do meu negócio para abrir fronteiras, ajudar com a venda, gestão, limpar escritório, fazer de tudo um pouco.”

Foi assim que Rejane aprimorou e uniu duas das capacidades – de contar histórias e de empreender – em uma só.

“O jornalismo me ensinou a ver o que há de mais belo nas pessoas, que é a capacidade de se reinventar. As pessoas são extraordinárias nesse sentido e o empreendedorismo tem muito disso. Ouvir e contar essas histórias me dá a noção de que eu não estou sozinha, que pequenas, médias e grandes empresas, em diferentes esferas, também têm seus desafios diários”.

Edições da Revista Aldeia

O futuro para uma empreendedora otimista, mas criteriosa

Rejane encara o futuro com aquele otimismo criterioso, que citamos no início do texto e, agora, explicamos.

Olhando além de apoio aos empreendedores, preocupações com impostos e cargas tributárias que tornam mais difícil o ato de empreender, Rejane utiliza os olhos de jornalista para ver e expor o que ela considera fundamental como empreendedora:

Eu espero uma mudança na visão das pessoas em apoiar projetos de empreendedores locais, porque isso se reverte para a comunidade. Em empreender não pensando apenas no lucro, mas em nosso entorno com um olhar mais apurado às questões locais e sociais. Porque quando a gente melhora nosso entorno, a gente cresce junto.

Prêmio Ocepar 2019 - 1° lugar na categoria Especial Crédito
Prêmio Ocepar 2019 – 1° lugar na categoria Especial Crédito

Foto: Bruna Scheidt

Nathalia Lehnen

Jornalista que se mete na publicidade e que acredita na comunicação responsável.


deixe seu comentário